sexta-feira, 24 de abril de 2015

Relatório Mundial da UNESCO - Investir na diversidade cultural e no dialogo intercultural.

CAPITULO 2 : Diálogo Intercultural
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O dialogo intercultural requer o empoderamento de todos os participantes por meio da capacitação e projetos que divulguem a interação sem a perda da identidade pessoal ou coletiva.
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O êxito do diálogo intercultural não depende tanto do conhecimento dos outros como da capacidade básica de ouvir, da flexibilidade cognitiva, da empatiada humildade e da hospitalidade. Nesse sentido, e com o propósito de desenvolver o diálogo e a empatia entre jovens de diferentes culturas, foram postas em marcha numerosas iniciativas que vão desde projetos escolares até programas de intercâmbio com atividades participativas nos âmbitos da cultura, arte e desporto. Não há dúvida de que a arte e a criatividade dão testemunho da profundidade e plasticidade das relações interculturais, assim como das formas de enriquecimento mútuo que propiciam, para além de auxiliarem a contrariar as identidades fechadas e a promover a pluralidade cultural. Do mesmo modo,  as práticas e os  acontecimentos multiculturais, como o estabelecimento de redes de cidades mundiais, os carnavais e os festivais culturais podem ajudar a superar  barreiras criando momentos de comunhão e diversão urbanas. As memórias (recordações) divergentes têm sido causa de muitos conflitos ao longo da história. Ainda que por si só, o diálogo intercultural não possa resolver todos os conflitos políticos, econômicos e sociais, um dos elementos-chave do seu êxito consiste na criação de um acervo de memória comum que permita o reconhecimento das faltas cometidas e um debate aberto sobre memórias antagônicas. A formulação de uma versão comum da história pode revelar-se crucial para a prevenção de conflitos e para as estratégias a adotar no pós-conflito, dissipando um passado que continua a estar presente. A Comissão de Verdade e Reconciliação sul-africana e os processos de reconciliação nacional em Ruanda constituem  exemplos recentes da aplicação política dessa estratégia de recuperação. A promoção de “lugares de memória” (a prisão de Robben Island na África do Sul, a ponte de Mostar na Bósnia e os Budas de Bamiyan no Afeganistão) demonstra igualmente que o que nos diferencia pode também contribuir para nos unir, ao contemplarmos os testemunhos da nossa humanidade comum. Fortalecimento da autonomia A promoção do diálogo intercultural conflui em grande medida com a abordagem de identidades múltiplas. Não deveria encarar-se o diálogo como uma perda do próprio, mas como algo que depende do conhecimento que temos de nós mesmos e da nossa capacidade de passarmos de um conjunto de referências a um outro.  Requer o fortalecimento da autonomia de todos os participantes, mediante a atribuição de capacidades e projetos que permitam a interação, sem prejuízo da identidade pessoal ou coletiva Essa perspectiva pressupõe reconhecer os modos de funcionamento  etnocêntrico que frequentemente adotam as culturas dominantes e reservar um espaço maior aos sistemas de pensamento que admitem formas de saber exotéricas e esotéricas. O sucesso dos estudos cartográficos comunitários é um exemplo notável e ajudou a capacitar as populações indígenas que procuram recuperar no plano internacional o direito à terra e aos recursos ancestrais e um desenvolvimento autonomamente definido. Um dos principais obstáculos à acomodação de novas vozes na esfera do diálogo intercultural é a subordinação generalizada das mulheres a interpretações preponderantemente masculinas das tradições culturais. Em muitos contextos sociais cabe às mulheres desempenhar uma função diferenciada na promoção da diversidade cultural, pois muitas vezes são elas as portadoras de valores na transmissão do idioma, dos códigos e sistemas éticos, das crenças religiosas  e dos modelos de conduta. A desigualdade entre homens e mulheres é multidimensional e interage de modo sub-reptício com outras formas de desigualdade fundadas, nomeadamente, sobre critérios raciais, sociais ou econômicos. A chave para um processo de diálogo intercultural frutífero está no reconhecimento da igual dignidade dos participantes. Pressupõe reconhecer e respeitar as diferentes formas de conhecimento e os seus modos de expressão, os costumes e tradições dos participantes e os esforços por estabelecer um contexto culturalmente neutro que facilite o diálogo e que permita às comunidades expressar-se livremente. Isso é especialmente verdade no caso do diálogo interconfessional, dimensão crucial da compreensão internacional e, por conseguinte, da resolução de conflitos. Para além dos intercâmbios institucionais entre personalidades eruditas ou representativas, o diálogo interconfessional assume um relevo ainda maior quando e se procura incluir intercâmbios de variada natureza, nomeadamente associações locais  ou comunitárias, contando com a participação de populações autóctones, jovens, mulheres, a fim de procurar conciliar diferentes pontos de vista.

"Conferência de Durban", "Rota do Escravo" X Recomendação do Comite MInisterial dos Negócios Estrangeiros do Conselho da Europa. Uma analógia justificavel, na busca da verdade Histórica (grifos meus)

Livro Branco sobre o Diálogo Intercultural
“Viver Juntos em Igual Dignidade”
Lançado pelos Ministros dos Negócios Estrangeiros do Conselho da Europa por ocasião da sua 118.ª reunião ministerial (Estrasburgo, 7 de Maio de 2008)
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4. Cinco abordagens de acção política para promover o diálogo intercultural
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4.3.1 Domínios-chave de competências: a cidadania democrática, a aprendizagem das línguas, a História
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A Recomendação do Comité de Ministros sobre o Ensino da História no Século XXI (2001)20 realça a necessidade de desenvolver nos estudantes a capacidade intelectual de analisar e de interpretar a informação de forma crítica e responsável através do diálogo, da investigação de factos históricos e de um debate aberto fundado numa visão plural, em particular sobre questões controversas e sensíveis. O ensino da História contribui para evitar a repetição ou a negação do Holocausto, dos genocídios e de outros crimes contra a humanidade, limpezas étnicas e violações maciças dos direitos humanos, para sanar as feridas do passado e promover os valores fundamentais mais caros ao Conselho da Europa; é um factor decisivo de reconciliação, de reconhecimento, de compreensão e de confiança mútua entre os povos. O ensino da História numa Europa democrática deverá ocupar um lugar essencial na formação de cidadãos responsáveis e activos e no desenvolvimento do respeito por todas as diferenças, fundado na compreensão da identidade nacional e dos princípios de tolerância. O ensino da História não pode constituir um instrumento de manipulação ideológica, de propaganda ou de promoção de valores ultranacionalistas, xenófobos, racistas ou anti-semitas e intolerantes. As investigações históricas e a História ensinada na escola não podem, de maneira alguma, ser compatíveis com os valores fundamentais e o acervo do Conselho da Europa se permitirem ou promoverem representações erróneas da História. O ensino da História deverá englobar a eliminação dos preconceitos e dos estereótipos, ao colocar em evidência, nos programas, as influências mútuas positivas que ocorreram entre diferentes países, religiões e escolas de pensamento no decurso da História da Europa, assim como o estudo crítico dos usos indevidos da História, quer se tratem de usos indevidos por negação de um facto histórico, por falsificação, por omissão, por ignorância ou por apropriação ideológica.
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Nota: 1 -  Conferência de Durban: Implementação e Desenvolvimento das Politicas de Promoção da Igualdade no Brasil.
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Após 10 anos da realização da Conferência de Durban, convocada pelas Organizações das Nações Unidas, em 2001 para discutir assuntos relacionados à discriminação racial, racismo e xenofobia é fundamental que se faça uma análise das ações implementadas no Brasil, com o objetivo de viabilizar as deliberações da referida conferência.
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Destaca-se também a implementação da Lei n°10.639/2003 que inclui no currículo oficial da Rede de Ensino fundamental e médio, a  obrigatoriedade da temática História e cultura afro brasileira. Para viabilizar essa ação, em 2010 a UNESCO no Brasil, em parceria com a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (SECAD/MEC) e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), viabilizaram a edição completa da Coleção História Geral da África, em Português. Em oito volumes, a obra cumpre a função de mostrar à sociedade que a história africana não se resume ao tráfico de escravos e à pobreza, porque fala da história de dentro do continente. Outra importante  iniciativa brasileira na matéria em questão foi a criação, através da Lei n° 12.289 de 20 de julho de 2010 da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira – UNILAB, em Redenção, no estado do Ceará, com o objetivo de, entre outros, ministrar ensino superior, desenvolver pesquisas nas diversas áreas de conhecimento e promover a extensão universitária, tendo como missão institucional específica formar recursos humanos para contribuir com a integração entre o Brasil e os demais países membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – CPLP-, especialmente os países africanos, bem como promover o desenvolvimento regional e o intercâmbio cultural, científico e educacional.   Fonte: XI Congresso Luso Afro Brasileiro de Ciência Sociais Diversidade e Desigualdades Salvador, realizado entre os dias 07 a 10 de agosto de 2011 - Universidade Federal da Bahia (UFBA)
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Nota 2 -  Breve referência sobre o projeto da UNESCO- "A Rota do Escravo"
Foi na 27ª Sessão da CG da UNESCO, em 1993, que, por iniciativa do Haiti e de vários países africanos, os Estados Membros da Organização confirmaram a necessidade de responder concretamente ao dever de memória, decidindo, pela Resolução 27/C.3.13, desenvolver o projeto que veio a denominar-se "A Rota do Escravo".
Orientado por um Comité Científico Internacional, O projeto foi lançado em 1994, em Ouidah, Benin, e tem desde então feito um extraordinário caminho, quebrando o silêncio sobre o tráfico negreiro, trazendo à luz do dia os traumas e as consequências desta história e as múltiplas transformações e as interações culturais que ela engendrou.
A UNESCO tem desenvolvido este projeto com parcerias importantes do Alto Comissariado para os Direitos Humanos, da Organização Mundial do Turismo, do Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios, da Fundação Cultural Palmarés, do Smithsoniam National Museum of African Americam History and Culture, do Centre for Black African Arts and civilization, dos mídia em todo o mundo e, evidentemente, com os apoios dos governos dos países membros da Organização.
Para assinalar o 20º aniversário do projeto, a UNESCO programou um conjunto de atividades comemorativas em sua Sede e fora da Sede e apelou aos Governos de todos os países membros a celebrarem a data com atividades que realcem os desafios e os objetivos do projeto e que promovam um aprofundamento dos conhecimentos não apenas da tragédia que foi o tráfico negreiro e a escravatura mas também do património cultural comum que esta realidade histórica deixou à humanidade e que deverá ser conservado, para memória. . Fonte: http://migre.me/pBFty

Descobrindo a África no Brasil - Genética de populações confirma unidade de escravos brasileiros notada por Rugendas há 200 anos Por: Sergio Pena - Publicado em 10/10/2008 | Atualizado em 11/12/2009

Escravos bantus no Brasil
Em um artigo fascinante, Robert Slenes, professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), relata como Rugendas argutamente observou que muitos daqueles escravos africanos, angolas, congos, bengüelas, monjolos, cabindas, rebolos, moçambiques, vindos das regiões mais variadas da África, rapidamente podiam conversar entre si.
De volta à Europa em 1825, Rugendas passou essas informações a estudiosos, incluindo um geógrafo e etnólogo italiano chamado Adriano Balbi (1782-1848). No seu tratado Atlas ethnographique du globe (‘Atlas etnográfico do globo’), Balbi proclamara a existência de uma grande família lingüística ao sul do Equador na África (excluindo os bosquímanos e hotentotes, é claro).

Cerca de três mil anos atrás, iniciou-se a chama “expansão bantu”. Um grupo lingüisticamente homogêneo da parte sudoeste da região onde hoje fica Camarões (mancha negra) iniciou um processo de migração, conquista territorial e expansão populacional que durou mais de mil anos e terminou com a ocupação pelos descendentes desse povo de grande parte da África central, austral e oriental.
Em seu artigo, Slenes cita Balbi: “No momento de soltar esta folha para ser impressa, um feliz acidente nos levou a conhecer o Sr. Maurice (Johann Moritz) Rugendas, chegado há pouco do Brasil”, onde “tivera a perspicácia de interrogar os numerosos africanos que o abominável comércio de escravos ainda leva a esse império do Novo Mundo”.
Somente em 1860 essa família lingüística (que sabemos hoje conter 87 línguas) receberia o nome de Bantu, palavra que significa “homem” na grande maioria desses idiomas. Como diz Slenes, “pode-se dizer, portanto, sem exagero, que através de Rugendas a Europa descobriu no Brasil uma parte importante da África”.
Como explicar tal unidade em uma grande região da África, continente caracterizado por extremo mosaicismo lingüístico? A explicação é que ocorreu uma notável expansão populacional histórica em escala continental, a chamada expansão Bantu (ver figura).
Cerca de 3 mil anos atrás, um grupo lingüisticamente homogêneo da parte sudoeste da região que é hoje Camarões iniciou um processo de migração, conquista territorial e expansão populacional. Esse processo durou mais de mil anos e terminou com a ocupação pelos descendentes desse povo de grande parte da África central, austral e oriental.
Um estudo genético de brancos brasileiros
Com base nos critérios de autoclassificação do censo de 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população brasileira era composta por 53,4% de brancos, 6,1% de pretos e 38,9% de pardos. O que representam esses números em termos de ancestralidade genética?
Em preparação para as comemorações em torno de 500 anos da chegada dos portugueses ao Brasil, fizemos uso de marcadores genômicos para mapear, na população autodeclarada branca do Brasil, as distribuições geográficas das ancestralidades ameríndia, européia e africana. O trabalho foi publicado na Ciência Hoje de abril de 2000, mês exato da comemoração, com o título "Retrato molecular do Brasil".
Para isso, amostras de DNA da população do Norte, Nordeste, Sudeste e Sul do Brasil foram estudadas com dois marcadores moleculares: o cromossomo Y para estabelecer linhagens paternas (patrilinhagens) e o DNA mitocondrial para estabelecer linhagens maternas (matrilinhagens) – leia na coluna de agosto sobre como essas ferramentas permitem a realização de pesquisas de genealogia.
Nosso estudo revelou que a esmagadora maioria das linhagens paternas da população branca do país veio da Europa. Porém, surpreendentemente, as linhagens maternas no Brasil como um todo mostraram uma distribuição bastante uniforme quanto às origens geográficas: 28% de linhagens africanas, 33% de ameríndias e 39% de européias.
Como esperado, a freqüência relativa desses três grupos filogeográficos variou consideravelmente entre as quatro regiões brasileiras analisadas. A maioria das linhagens mitocondriais no Norte era de origem ameríndia (54%), enquanto a ancestralidade africana era mais comum no Nordeste (44%) e a européia no Sul (66%). O Sudeste apresentou um equilíbrio nas freqüências das três origens geográficas. Fonte: ICH   http://migre.me/pAXcF

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Parte 03 - OS MINAS EM MINAS: TRÁFICO ATLÂNTICO,REDES DE C0MÉRCIO E ETNICIDADE

 
Comboio de Escravos - Fonte: http://migre.me/g5tEh
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Nos primeiros dez anos que se seguem à descoberta do ouro é montado um ineficiente aparato fiscal, com vistas à taxação do ouro. O "Caminho Novo", sem passagem por Paraty, é aberto por Garcia Rodrigues Pais Leme, em 17105, mas, por muitos anos, a chamada Estrada Geral da Serra dos Órgãos é apenas uma estreita  trilha. O ano de 1710 pode ser considerado um marco na organização do tráfico negreiro na capitania do Rio de Janeiro. Neste ano é elevada para 4.500 réis a taxa cobrada por escravo enviado às minas. Já então grande parte desses escravos vêm do Nordeste, com escala em Recife, Salvador, Rio de Janeiro e Paraty, de onde seguem, por terra, até as lavras de our0
• Por volta de 171 O já há um mercado de escravos bem regulad07
• Júnia Furtado mostra como o comércio de escravos em Minas envolve, na primeira metade do século XVIII, grandes comboieiros que vêm do Rio de Janeiro e da Bahia com carregamentos para as minas. Os escravos levados para as minas vêm, muitas vezes, já encomendados, e sua compra é paga antecipadamente; outros são arrematados nos leilões pelos comboieiros e revendidos depois8   Fonte: Maria de Carvalho Soares Universidade Federal Fluminense - S621 Simpósio Nacional da Associação Nacional de História (20: 1999: Florianópolis) História: fronteiras / Associação Nacional de História. São Paulo: Humanitas / FFLCH / USP: ANPUH, 1999.
http://anpuh.org/anais/?p=16221
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Parafraseando: Já então grande parte desses escravos vêm do Nordeste, com escala em Recife, Salvador, Rio de Janeiro e Paraty, de onde seguem, por terra, até as lavras de our0, via Alto da Serra, (Garganta do Sapucai, Desfiladeiro de Itajubá, Registro de Itajubá, Caminho de Fernão Dias), em conformidade com o Mapa, espaço colonial de Piquete-SP. Então denominado, Caminho Geral do Sertão, Caminho Velho, Estrada Real do Sertão, Caminho dos Paulista.  

Fonte: Carta corográfica - Cap. de S. Paulo, 1766 .Apresentando o Estado Político da Capitania de São Paulo em 1766, foi elaborada esta carta, com particular atenção aos limites com Minas Gerais. (http://migre.me/aWncu)
 
 

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Congo Belga – 10 milhões assassinados! (Transcrição)

Para dar ao leitor uma visão concreta do que foi a colonização da África, vou deixar aqui o testemunho do missionário sueco E. V. Sjöblom sobre a sua estadia no Estado livre do Congo. A citação é longa mas necessária. Veja o leitor também qual foi a reação de Sjöblom aos acontecimentos que presenciou, relacionados com a recolha obrigatória do caucho, o látex da borracha.
”Continuando o meu caminho fui saudando os indigenas amigávelmente. Como habitualmente consegui afastar o medo e, pelo menos em parte, ganhar a sua afecção. Alguns jovens seguiram-me e quando chegámos ao acampamento já lá estávam um grande grupo de pessoas. Outros indígenas iam voltando do trabalho de ir buscar cauchu à floresta. Pouco tempo passado estavam já várias centenas de pessoas reunidas à minha frente.
De repente um dos soldados – também indígena mas de outra aldeia – agarrou um homem de idade e amarrou-o. O soldado virou-se para mim e disse:
-          Eu vou matar este homem porque ele não trousse nenhum cauchu.
Eu respondi: Na realidade eu não tenho nada a vêr com isso e não tenho direito de te impedir. Mas eu desejaria que tu não o fizesses na minha presença, quando estão tantas pessoas aqui para ouvir a palavra de Deus.
Ele respondeu: Se nós não matamos os que vêm sem cauchu, os oficiais do estado livre matam-nos a nós. É melhor matarmos outros do que sermos mortos.
Assim que ele disse isto, dirigiu-se ao homem velho como um tigre atiçado. Arrastou-o alguns passos para fora do grupo, apontou a espingarda à cabeça do homem e matou-o. De seguida pôs outra bala na espingarda e apontou ao grupo de pessoas que desapareceu rápidamente. Estava com medo de ser atacado e queria meter medo aos que estavam reunidos.
Durante alguns minutos estivemos todos calados. O grupo tinha fugido e eu e os meus homens estávmos calados. Em seguida o soldado mandou um menino de nove anos cortar a mão direita do morto. Esta mão com muitas outras mãos, que tinham sido decepadas pelo mesmo motivo, tinham que ser entregues ao comissário como um sinal da vitória da civilização”.
 
A razão desta coleção de mãos decepadas é que por cada cartucho utilizado pelos soldados tinha que ser entregue uma mão direita decepada aos oficiais do exército do Estado livre do Congo. Nenhuma bala podia desaparecer, todas tinham que ter um equivalente em mãos decepadas. Às vezes acontecia que os soldados se utilizavam das espingardas na caça e para darem conta das balas aos oficiais, agarravam uma pessoa viva i cortavam-lhe a mão direita. Dezenas de milhares de cartuchos sem balas eram entregues regularmente aos oficiais do estado livre com o mesmo número de mãos direitas decepadas de pessoas mortas ou vivas.
 
Cada cartucho utilizado, uma mão a entregar
Escravatura total das pessoas no Congo
 
 Mas o número de mortos era maior do que as mãos entregues. As crianças eram muitas vezes assassinadas pelos soldados a golpe de pancada com as espingardas. No ano de 1919 uma comissão oficial belga chegou à conclusão que a população do Estado livre do Congo-Congo Belga, tinha diminuido para metade depois da ocupação europeia em 1884. Uma diminuição para metade em 35 anos! Trata-se de pelo menos 10 milhões de pessoas mortas!
Os soldados inculpados neste morticíno estavam incluídos numa força especial de legionários negros comandada por corpo de oficiais branco sob as ordens do general-major Emile Janssen. Janssen deu ordem aos chefes das aldeias de lhe mandarem ”os piores elementos”, os quais foram incorporados com uma ”disciplina absoluta” durante um periodo de sete anos, uma lavagem ao cérebro com o nome de ”Boula Matari”, ou seja o nosso rei ”soverano na Belgica e no Congo, dois reinos unidos para sempre”.
Segundo o próprio general-major Janssen esses homens eram treinados para terem uma lealdade absoluta para com o rei e o país colonizador. Segundo ele tinham ”todos os meios desponiveis sido utilizados: escolas, jornais, radio, apoio social, control da polícia politica G2, oficiais de inteligencia e informação” nesta lavagem cerebral. Fonte: http://migre.me/pA5ta
 

Parte 02 - OS MINAS EM MINAS: TRÁFICO ATLÂNTICO, REDES DE COMÉRCIO E ETNICIDADE (Transcrição)

OS MINAS EM MINAS: TRÁFICO ATLÂNTICO, REDES DE COMÉRCIO E ETNICIDADE: Excetuando-se o caso da Bahia, as rotas de distribuição de escravos procedentes da Costa da Mina para diferentes pontos  das capitanias do sul, ao longo do século XVIII, têm sido menosprezadas pelos historiadores do tráfico atlântico1 
• Em trabalhos anteriores procurei destacar duas idéias que são o ponto de partida  para essa nova reflexão. Em primeiro lugar, ao tratar do tráfico  de escravos africanos e das formas de organização desses escravos  no cativeiro é indispensável considerar sua diversidade, seja  pela identificação étnica, seja por outras identidades configuradas  no cativeiro 2
• Ao contrário do que tem sido afirmado pela  historiografia, os chamados "mina" não são um grupo étnico e sim o resultado da reorganização de diferentes grupos étnicos procedentes da Costa da Mina que, a partir do século XV. em  função da configuração do Império português, passam a ser assim
designados. É o caso dos maki (ou mahi, como são chamados na Bahia) um dos principais grupos étnicos designados no Rio de Janeiro como "mina". Ao longo do século XVIII e mesmo na primeira metade do XIX, pude localizá-los na Bahia, no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e em Goiás.
Fonte: Maria de Carvalho Soares Universidade Federal Fluminense - S621 Simpósio Nacional da Associação Nacional de História (20: 1999: Florianópolis) História: fronteiras / Associação Nacional de História. São Paulo: Humanitas / FFLCH / USP: ANPUH, 1999. 
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Nota: (Rugendas se encantou particularmente com a ampla variedade de povos africanos no Rio de Janeiro, que captou em sua arte (ver figura). Como relatado por ele, “em um só golpe de vista o artista pode conseguir resultados que, na África, só atingiria através de longas e perigosas viagens a todas as regiões dessa parte do mundo”. )


Montagem (feita pelo colunista) de retratos de escravos de várias origens geográficas, pintados por Johann Moritz Rugendas no Rio de Janeiro, durante a década de 1820. Cada escravo(a) é identificado(a) por sua etnia, como se segue: (1) Angola, (2) Congo, (3) Bengüela, (4) Monjolo, (5) Cabinda, (6) Quiloa, (7) Rebolo, (8) e (9) Moçambique, (10) Mina. As etnias de 1-5 e 7 são da África central, 8-9 são do sudeste africano e 10 é da África ocidental. A presença de um escravo Quiloa é peculiar, pois essa é uma etnia da África Oriental, região da qual vieram muito poucos escravos para o Brasil. Todos, com exceção da escrava da Mina, falavam dialetos da família Bantu. Fonte: http://migre.me/pAXcF
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